Silêncio em Tons de Cinza
Eu nunca entendi por que as pessoas gostam tanto de dias ensolarados.
Talvez porque o sol faça tudo parecer mais vivo.
Mas eu sempre gostei dos dias em que o céu fechava.
Quando as nuvens chegavam e cobriam tudo com aquele cinza profundo, eu sentia uma calma que não sabia explicar.
Havia alguma coisa naquele silêncio.
Na chuva caindo devagar.
No vento passando pelas árvores.
Na cidade ficando um pouco mais quieta.
Eu costumava subir até uma colina apenas para assistir.
Ficava ali olhando o mar, enquanto o céu parecia se derramar sobre ele.
Tudo ficava cinza.
E, ainda assim, era bonito.
Talvez principalmente por isso.
Eu gostava de observar as árvores se movendo com o vento, as gotas escorrendo pelos galhos, as nuvens escondendo o céu que normalmente todos queriam ver.
Era como se o mundo, por alguns minutos, deixasse de tentar ser bonito.
E justamente por isso se tornasse ainda mais bonito.
Lembro de sair da escola em dias assim.
Enquanto alguns corriam para não se molhar, eu diminuía o passo.
Às vezes até corria na chuva.
Deixava a água cair no rosto.
Não porque queria chegar em casa molhado.
Mas porque, naquele momento, eu não queria chegar a lugar nenhum.
Queria apenas estar ali.
Sentir.
Respirar.
Existir.
Talvez eu tenha descoberto naquela época uma coisa que demorei muito para entender:
nem toda paz precisa ser ensolarada.
Existem dias cinzentos que acolhem.
Existem silêncios que não machucam.
Existem momentos em que estar sozinho não significa estar vazio.
E talvez seja por isso que, até hoje, quando o céu escurece e a primeira gota toca o chão, alguma coisa dentro de mim desacelera.
Eu olho para cima.
As nuvens continuam ali.
O mundo continua correndo.
Mas, por alguns instantes, parece que tudo pode esperar.
E eu volto a ser aquele garoto que saía da escola sem pressa, correndo pela chuva, sem saber que um dia sentiria saudade daquela liberdade.
Talvez seja isso que encontro nos dias nublados.
Não apenas chuva.
Encontro uma parte de mim que o tempo não conseguiu levar.
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