O abraço que ainda virá
Às vezes fecho os olhos
e imagino uma casa.
Não precisa ser grande.
Só precisa ter aquele tipo de silêncio que existe quando todos estão dormindo
e você sabe que, do outro lado da porta,
estão as pessoas que ama.
Imagino você ali.
Talvez sentada à mesa,
talvez reclamando que eu deixei alguma coisa fora do lugar,
talvez rindo de alguma bobagem que eu disse.
E eu penso que talvez seja isso que sempre procurei.
Não uma vida perfeita.
Uma vida nossa.
Uma mesa onde ninguém precise ter pressa.
Onde possamos conversar olhando nos olhos,
contar como foi o dia,
rir das coisas pequenas
e agradecer por ainda estarmos juntos.
Imagino nossas mãos se encontrando por baixo da mesa.
Um gesto pequeno.
Quase secreto.
Mas suficiente para lembrar que, depois de tudo,
chegamos até ali.
E então penso em uma criança correndo pela casa.
Nossa filha.
Ainda pequena demais para entender o tamanho do amor que colocou dentro de nós.
Talvez ela acorde cedo.
Entre no quarto ainda sonolenta,
suba na cama
e procure por nós dois.
E eu imagino ouvir:
"Bom dia, papai."
Talvez eu nem consiga responder direito.
Talvez eu apenas a abrace.
Porque existem momentos que a gente passa tanto tempo imaginando
que, quando finalmente chegam,
parecem grandes demais para caber no peito.
E você estará ali.
Olhando para nós.
E talvez eu segure sua mão
e pense em quantas coisas precisaram acontecer
para que aquela manhã existisse.
Quantos caminhos.
Quantas escolhas.
Quantas esperas.
Quantas noites em que eu ainda nem sabia quem você era.
E então vou entender que eu não estava sonhando com uma casa.
Estava sonhando com pertencimento.
Com um lugar onde eu pudesse chegar cansado
e ainda assim saber que alguém me esperava.
Um lugar onde minha filha pudesse crescer sabendo que é amada.
Onde nós dois pudéssemos envelhecer
sem precisar de grandes acontecimentos para sermos felizes.
Talvez seja um sonho simples.
Mas é o meu.
E quando eu abrir os olhos,
a casa ainda não estará cheia.
A mesa ainda estará vazia.
A voz da nossa menina ainda não vai me chamar.
Você ainda não estará ao meu lado.
Mas, por alguns segundos,
eu vou sorrir.
Porque algumas coisas ainda não aconteceram
e, mesmo assim,
já moram dentro de nós.
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